domingo, 12 de outubro de 2008

Devil's Tower


Os sentimentos são bichos muito complicados. São qualquer coisa tipo doença infecciosa que se introduz no organismo, instala-se e altera completamente a nossa qualidade de vida.
Tal como um virus latente, manifesta-se com sintomas desagradáveis de vez em quando. Só que, não sei porquê, já que acredito que a industria farmacêutica teria muito a ganhar com isso, ainda não inventaram nem vacina, nem qualquer tipo de medicamento que lhe ponha fim.
Eu sou, infelizmente, uma pessoa que sofre desta doença de forma crónica.
Como é normal com este tipo de enfermidades, habituei-me, desde a infância a viver com ela e até me esqueço que a tenho no dia a dia. Mas depois há estas fases em que sinto as dores terríveis que ela provoca. Alturas em que queria ser planta, insecto, pedra,... qualquer coisa menos este ser sensível que sofre as consequencias de se entregar, de amar, de se dar sem condições.
O amor e a amizade, coisas que muito prezo normalmente, surgem assim com a sua verdadeira essência:
Cada pessoa que se ama, cada pessoa em que confiamos, é um elo numa corrente que se aperta à nossa volta em cada dar de mãos, em cada abraço, em cada afastar os cabelos da testa, em cada palavra amiga, em cada gesto de ternura.
Deve ser bom ser livre. Eu não sou livre. Eu gosto das pessoas. Eu sou prisioneira numa torre de pedra que se ergue muito alta sobre o mundo. Só que esta cadeia tem portas falsas: permitem que os outros entrem e saiam a seu bel-prazer (meu Deus, e que correpio... ) mas, se tento saír, cerram-se à minha aproximação.
Cúmulo da estupidez:
Ninguém me fechou aqui, fui eu que, pedrinha a pedrinha, fui erguendo esta fortaleza em que me encerrei e onde vou derramando lágrimas ácidas que me queimam, deixando sulcos de tristeza, decepção, desencanto no meu rosto, até ao meu fim.
Tento desligar os meus sentidos:
Não ouvir, não sentir, não ver o que se passa à minha volta.
Impossível:
Fecho os olhos com força, mas tudo o que existe, não está à minha volta, não é paisagem, não é erva, pessoa, animal, astro, água,...
Não, não adianta fechar os olhos:
Está tudo aqui dentro de mim!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008


Às vezes há uma necessidade enorme de falar, de escrever, comunicar...
O peito está cheio, a alma rebenta, há uma necessidade que se torna quase física, vital...
E tenta-se
Mas as palavras não saem, da garganta não sai um som, os dedos procuram nas teclas as letras que deviam formar as palavras que, por sua vez, formariam as frases, as frases que desvendariam as ideias, os sentimentos, os desejos, as dores, as alegrias...
Instalou-se uma barreira entre nós e os outros. Processo infeccioso que começa a instalar-se dentro de nós e que ultrapassa as barreiras de comunicação com as outras pessoas, com a sociedade em que vivemos, começa a minar a nossa capacidade de comunicar com nós próprios.
Que sociedade desenvolvida é esta em que cada ser humano se refugia cada vez mais em si mesmo?
É mesmo isto que queremos fazer do século XXI?
As guerras não param
(porque não nos amamos apenas?)
A tristeza e a frustração instalam-se nos espíritos
(porque não agarramos as mãos dos amigos e deixamos que os olhos se encham de alegria?)
Procura-se com afã os bens materiais
(porque não vemos que tudo que precisamos se encontra dentro de nós?)
Andamos insatisfeitos e tristonhos, cinzentões
(porque não deixamos que o nosso coração floresça no sorriso de quem nos quer bem?)

Eu não quero este mundo tristonho
Eu recuso este vegetar a que nos querem conduzir
Não vou ser mais uma ovelha do rebanho
Vou ser preta, azul, branca, o que quer que seja, menos cinzenta!
Vou rir, dançar, chorar, sempre e quando me apetecer
Amem-me, odeiem-me... não digam é de mim "é boa pessoa"

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Open Wound - Ferida Aberta


O sonho germinou no meu peito
qual criança ganhando forma no ventre da mãe.
Alimentou-se do meu sangue,
encheu a minha vida
ganhou contornos
materializou-se,
agitou-se cá dentro.

Senti-o pulsar
amei-o
é gente, é sol, é lua,
o sonho é farol,
é bússula que norteia o meu rumo,
chama que aviva os meus sentidos.

Meu sonho é montanha
mesmo que para outros seja grão de areia.

Meu sonho em mim gerado
de mim quase nascido.

Bisturi afiado e gestos firmes
rasgaram a minha alma
arrancaram-te de mim
com garras de gelo
cortaram o fio que te prendia à vida.

No lugar quentinho que era o teu,
no canto especial do meu coração em que te aninhavas
ficou apenas esta ferida aberta...

Minha alma exangue
chora por ti
lagrimas vermelhas e espessas
sangue da vida que se escoa de ti.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Amigo


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

Os Amigos


Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Para onde vão todas as coisas maravilhosas que nos acontecem ao longo da vida?


Para onde vão todas as coisas maravilhosas que nos acontecem ao longo da vida?
Em que cantinho do universo ou do imaginário se enroscam e hibernam para um dia no meio de nada faíscarem no nosso inconsciente?
Para onde foram as paixões que assolaram a nossa adolescência?
Onde se escondem as caricias que um dia trocámos com alguém cujo paradeiro actual desconhecemos?
Nalgum sítio, o calor de sorrisos que nos encheram a alma, deve estar refugiado.
Numa estrela distante, as mãos dadas como se fossem amarras que prendem o barco ao cais.
Um grão de pólen de uma flor silvestre pode conter milhares de abraços fortes, grandes como o mundo, que em dias mais difíceis nos fizeram sentir que afinal a vida vale a pena.
Quem sabe se naquela nuvem rosada não se desenrolam as nossas brincadeiras de infância?
Os livros que lemos, as músicas que ouvimos, os risos que soltámos, os sonhos que sonhámos...
Sei que não se esfumaram, não desapareceram e de certeza que não se perderam!
Então:
Para onde vão todas as coisas maravilhosas que nos acontecem ao longo da vida?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Cabo do Meu Medo




Vivo perto do Cabo do Meu Medo.
Desde sempre este lugar me seduziu.
Era pequenina e ouvia falar de gente que (por acidente ou assim me faziam pensar) lá tinha desaparecido mas para mim isso era daquelas informações que passam impunemente através dos sentidos. Só muito mais tarde me apercebi que provavelmente se tratava de suicídios, mas eu desprezo suicidas (ou não?)
O cabo é lindo termina a pique, a terra acaba ali e depois é só mar, é tudo azul, é mar, é céu, é infinito....
Quando ia com o meu pai passear ao cabo, ele chegava-se sempre mesmo à beirinha e eu chorava, tinha tanto medo que ele roubasse o meu pai!
O meu pai via-me chorar e voltava para o pé de mim e abraçava-me e o mundo voltava ao seu lugar, a Terra voltava a girar à volta do Sol, o dia voltava a ter cores, as ervas, as flores, o mar voltavam a brilhar. Já não fazia mal que o vento soprasse com força, que o mar gritasse o seu chamamento lá de baixo.
O meu pai queria que eu fosse de mão dada com ele sentir o mar ali de cima, ver como era lindo contemplá-lo de tão alto, mas eu nunca tive coragem de chegar perto daquela linha entre a terra e o abismo, nem sequer com a segurança que a mão dele me dava.
Eu sempre soube que se um dia fosse ali, eu ia ter com ele, o mar sempre me chamou para si, qual amante tentador.
Por vezes, acordo a sonhar que estou lá, ouço a voz forte do mar a chamar-me insistentemente, o seu canto magnetiza-me, envolve-me, puxa-me até não sobrar nada da minha vontade, do meu ser, e entrego-me...
Mas quando acordo a mão do meu pai não está lá para me apanhar, eu não sou gaivota nem anjo e o meu voo…
O meu voo foi apenas um pesadelo.