segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Cabo do Meu Medo




Vivo perto do Cabo do Meu Medo.
Desde sempre este lugar me seduziu.
Era pequenina e ouvia falar de gente que (por acidente ou assim me faziam pensar) lá tinha desaparecido mas para mim isso era daquelas informações que passam impunemente através dos sentidos. Só muito mais tarde me apercebi que provavelmente se tratava de suicídios, mas eu desprezo suicidas (ou não?)
O cabo é lindo termina a pique, a terra acaba ali e depois é só mar, é tudo azul, é mar, é céu, é infinito....
Quando ia com o meu pai passear ao cabo, ele chegava-se sempre mesmo à beirinha e eu chorava, tinha tanto medo que ele roubasse o meu pai!
O meu pai via-me chorar e voltava para o pé de mim e abraçava-me e o mundo voltava ao seu lugar, a Terra voltava a girar à volta do Sol, o dia voltava a ter cores, as ervas, as flores, o mar voltavam a brilhar. Já não fazia mal que o vento soprasse com força, que o mar gritasse o seu chamamento lá de baixo.
O meu pai queria que eu fosse de mão dada com ele sentir o mar ali de cima, ver como era lindo contemplá-lo de tão alto, mas eu nunca tive coragem de chegar perto daquela linha entre a terra e o abismo, nem sequer com a segurança que a mão dele me dava.
Eu sempre soube que se um dia fosse ali, eu ia ter com ele, o mar sempre me chamou para si, qual amante tentador.
Por vezes, acordo a sonhar que estou lá, ouço a voz forte do mar a chamar-me insistentemente, o seu canto magnetiza-me, envolve-me, puxa-me até não sobrar nada da minha vontade, do meu ser, e entrego-me...
Mas quando acordo a mão do meu pai não está lá para me apanhar, eu não sou gaivota nem anjo e o meu voo…
O meu voo foi apenas um pesadelo.

1 comentário:

SilenceSecretWings disse...

Eu quero ir contigo ao cabo, quero pegar na tua mão, e quero que juntas apreciemos o que o pai via e sentia. E dê por onde der, seja como for, eu não te deixo cair, vou segurar-te bem firme como nunca antes.
Tu deste-me a tua mão e eu segurei-a com toda a confiança, é a tua vez...