terça-feira, 30 de setembro de 2008

Para onde vão todas as coisas maravilhosas que nos acontecem ao longo da vida?


Para onde vão todas as coisas maravilhosas que nos acontecem ao longo da vida?
Em que cantinho do universo ou do imaginário se enroscam e hibernam para um dia no meio de nada faíscarem no nosso inconsciente?
Para onde foram as paixões que assolaram a nossa adolescência?
Onde se escondem as caricias que um dia trocámos com alguém cujo paradeiro actual desconhecemos?
Nalgum sítio, o calor de sorrisos que nos encheram a alma, deve estar refugiado.
Numa estrela distante, as mãos dadas como se fossem amarras que prendem o barco ao cais.
Um grão de pólen de uma flor silvestre pode conter milhares de abraços fortes, grandes como o mundo, que em dias mais difíceis nos fizeram sentir que afinal a vida vale a pena.
Quem sabe se naquela nuvem rosada não se desenrolam as nossas brincadeiras de infância?
Os livros que lemos, as músicas que ouvimos, os risos que soltámos, os sonhos que sonhámos...
Sei que não se esfumaram, não desapareceram e de certeza que não se perderam!
Então:
Para onde vão todas as coisas maravilhosas que nos acontecem ao longo da vida?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Cabo do Meu Medo




Vivo perto do Cabo do Meu Medo.
Desde sempre este lugar me seduziu.
Era pequenina e ouvia falar de gente que (por acidente ou assim me faziam pensar) lá tinha desaparecido mas para mim isso era daquelas informações que passam impunemente através dos sentidos. Só muito mais tarde me apercebi que provavelmente se tratava de suicídios, mas eu desprezo suicidas (ou não?)
O cabo é lindo termina a pique, a terra acaba ali e depois é só mar, é tudo azul, é mar, é céu, é infinito....
Quando ia com o meu pai passear ao cabo, ele chegava-se sempre mesmo à beirinha e eu chorava, tinha tanto medo que ele roubasse o meu pai!
O meu pai via-me chorar e voltava para o pé de mim e abraçava-me e o mundo voltava ao seu lugar, a Terra voltava a girar à volta do Sol, o dia voltava a ter cores, as ervas, as flores, o mar voltavam a brilhar. Já não fazia mal que o vento soprasse com força, que o mar gritasse o seu chamamento lá de baixo.
O meu pai queria que eu fosse de mão dada com ele sentir o mar ali de cima, ver como era lindo contemplá-lo de tão alto, mas eu nunca tive coragem de chegar perto daquela linha entre a terra e o abismo, nem sequer com a segurança que a mão dele me dava.
Eu sempre soube que se um dia fosse ali, eu ia ter com ele, o mar sempre me chamou para si, qual amante tentador.
Por vezes, acordo a sonhar que estou lá, ouço a voz forte do mar a chamar-me insistentemente, o seu canto magnetiza-me, envolve-me, puxa-me até não sobrar nada da minha vontade, do meu ser, e entrego-me...
Mas quando acordo a mão do meu pai não está lá para me apanhar, eu não sou gaivota nem anjo e o meu voo…
O meu voo foi apenas um pesadelo.

domingo, 28 de setembro de 2008


Sózinha no meu quarto
envolta num silêncio de chumbo
o escuro espraia-se nas paredes
ao meu redor tudo é negro.

Tudo?
Não!
Naquele canto...
Brilham dois olhos vermelhos
sobre uma boca negra e rugosa
debaixo de uma pele transparente e esverdeada
umas entranhas púrpura
agitam-se como vermes num dança macabra

O monstro estende-me as suas garras
negras e peludas
aproxima-se

Estendo-lhe os braços

Patas ásperas envolvem-me
num amplexo familiar

Companheira de longa data
que me visitas fielmente,
deixa-me apresentar-te a quem me lê:

- Esta é a minha amiga mais antiga
a minha amiga mais íntima
Chama-se Solidão

sábado, 27 de setembro de 2008

Procura


Vê que a vida
Começa a arranhar-te a carne.
Vê que para os teus olhos
desaparece o belo do mundo.
Pouco pouco, penetra em ti
a escuridão fria do Inverno.
A escuridão da incompreensão,
o frio da carência.
Porém viverás na certeza de que
Inverno não é eterno.

Procura no horizonte:
um raio de sol já desponta.
Ainda que tímido,
ainda que fraco,
rasga as trevas e aquece-te a alma.
O dia sucede à noite,
a luz à escuridão,
o calor ao frio...

Procura dentro de ti:
lá por trás da solidão,
o amor persiste, pulsa,
a força luta, conquista o mundo,
a luz acende-se,
invade a vida dos que te rodeiam.

Procura naquele olhar:
vê como se inspira no teu.


Procura na palma da tua mão:
- a vida!